quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Espiritismo racista?

 Essa é uma questão muito pertinente e um tema de debate frequente e necessário dentro e fora do movimento espírita. A acusação de racismo existe porque há, de fato, passagens nas obras de Allan Kardec que refletem visões racistas. No entanto, é preciso separar as crenças científicas do século XIX dos princípios morais fundamentais da doutrina.

Para entender essa dualidade com clareza e franqueza, precisamos olhar para o contexto histórico e para a base da filosofia espírita.

A Origem das Acusações

As acusações se baseiam em textos escritos por Allan Kardec, especialmente na Revista Espírita e em algumas passagens do livro A Gênese.

 * O contexto científico do século XIX: Kardec era um intelectual francês que viveu na Europa dos anos 1850 e 1860. Nessa época, a comunidade científica europeia era amplamente dominada por teorias pseudocientíficas hoje rechaçadas, como a frenologia e o racismo científico. Acreditava-se, erroneamente, que existia uma hierarquia biológica e intelectual entre as raças humanas, sendo a europeia (branca) considerada o "ápice" evolutivo.

 * A tentativa de conciliação: Como Kardec buscava aliar a religião à ciência da época, ele acabou incorporando esses preconceitos europeus em suas análises. Ele chegou a escrever que espíritos em estágios iniciais de evolução encarnavam em raças que ele considerava "inferiores" ou "primitivas" (referindo-se a populações negras e indígenas) e que a evolução do espírito acompanhava a evolução do corpo físico.

Essas falas são, à luz do conhecimento moderno e dos direitos humanos, inegavelmente racistas e eurocêntricas.

O Que a Doutrina Espírita Fundamental Diz

Apesar das visões pessoais de Kardec e do determinismo biológico da época refletidos em alguns textos, a essência moral e espiritual da doutrina espírita é estritamente antirracista. Os fundamentos codificados em O Livro dos Espíritos contradizem diretamente a discriminação:

 * O espírito não tem cor, raça ou gênero: A doutrina ensina que o espírito é imaterial. O corpo físico é apenas uma vestimenta temporária. Sendo assim, a raça é uma condição transitória e biológica, não uma característica do espírito.

 * A lei da reencarnação: Para evoluir, um espírito precisa passar por múltiplas experiências. Isso significa que ele reencarnará em diferentes raças, gêneros, nacionalidades e classes sociais. Um princípio clássico do espiritismo é que o racista de hoje pode reencarnar amanhã na exata raça que discriminou, para aprender na pele a lição da empatia e da igualdade.

 * Igualdade perante Deus: Na Questão 803 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se todos os homens são iguais perante Deus. A resposta dos espíritos é categórica: "Sim, pois todos tendem para o mesmo fim e Deus fez as Suas leis para todos". O único critério de "superioridade" aceito pela doutrina é o desenvolvimento moral e intelectual individual, não a biologia.

 * Fraternidade universal: O lema máximo do espiritismo é "Fora da caridade não há salvação". O preconceito, o orgulho e o egoísmo são vistos como as maiores chagas da humanidade e os principais obstáculos para a evolução espiritual.

A Postura do Espiritismo Moderno

Hoje, pesquisadores espíritas e instituições minimamente responsáveis (como a Federação Espírita Brasileira) adotam uma postura de contextualização histórica.

Eles reconhecem que Kardec foi um homem do seu tempo e que suas opiniões sobre raça estavam atreladas aos erros da ciência do século XIX e devem ser descartadas. O foco da doutrina moderna recai sobre os ensinamentos morais de Cristo e a universalidade do espírito, onde o racismo é visto como um grave erro de conduta e uma demonstração de atraso moral.

Aqui estão os trechos mais reveladores que mostram a verdadeira essência da doutrina sobre a igualdade humana e a justiça:

​1. A Igualdade Fundamental Perante Deus

​A doutrina é clara ao afirmar que não existem privilégios de criação. As diferenças que vemos no mundo são transitórias e fruto do estágio individual de cada espírito.

Questão 803. São iguais perante Deus todos os homens?

"Sim, todos tendem para o mesmo fim e Deus fez as Suas leis para todos. Dizei frequentemente a vós mesmos que o Sol brilha para todos e que, quanto a isso, não há privilégio para ninguém."


Questão 804. Por que não outorgou Deus as mesmas aptidões a todos os homens?

"Deus criou iguais todos os Espíritos, mas cada um deles viveu mais ou menos tempo, e, por conseguinte, adquiriu mais ou menos desenvolvimento. A diferença está nas suas experiências e na sua vontade, que é o livre-arbítrio."


​2. O Corpo Físico como Instrumento Temporário

​Para o espiritismo, a raça, o gênero e as características físicas são apenas "roupas" temporárias que o espírito veste para aprender lições específicas. O espírito em si não tem etnia.

Questão 199. Por que a vida se interrompe frequentemente na infância?

(Em uma nota a essa questão, a explicação espiritual aborda a natureza do espírito em relação ao corpo): "O Espírito, encarnando, traz as suas imperfeições. [...] O corpo é apenas um envoltório, um instrumento."


Questão 332. Pode um Espírito, que já animou o corpo de um homem civilizado, encarnar no de um selvagem?

"Pode, mas isso será uma expiação, ou uma missão. [...] O Espírito pode também ser levado a isso pelo desejo de experimentar a vida numa condição que lhe ofereça outras provas." (Nota: Embora a linguagem "selvagem/civilizado" reflita a antropologia do século XIX, o princípio fundamental aqui é a fluidez: um mesmo espírito transita entre diferentes etnias, culturas e condições sociais ao longo de suas encarnações).


​3. A Crítica à Desigualdade Social

​O espiritismo não romantiza a desigualdade social nem a atribui a uma "vontade divina". Pelo contrário, aponta o egoísmo humano como o causador das injustiças.

Questão 806. É lei da Natureza a desigualdade das condições sociais?

"Não; é obra do homem e não de Deus."


Questão 807. Que se deve pensar dos que abusam da superioridade de suas posições sociais, para oprimir os fracos a seu proveito?

"Merecem anátema! Ai deles! Serão oprimidos por sua vez: renascerão numa existência em que sofrerão tudo o que fizeram sofrer."


​A Conclusão Lógica da Doutrina

​Quando cruzamos esses princípios morais ditados pelos espíritos com os textos opinativos e de análise antropológica que Kardec escreveu mais tarde, fica evidente um conflito. O "Kardec cientista do século XIX" tentou explicar as diferenças biológicas usando o racismo estrutural de sua época, mas o "Kardec codificador" registrou uma lei moral onde a igualdade absoluta dos espíritos é a regra.

​É por isso que o movimento espírita contemporâneo se apoia nestas questões de O Livro dos Espíritos para afirmar que o racismo é uma infração direta à Lei de Igualdade e à Lei de Amor e Caridade.


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