quarta-feira, agosto 17, 2005

Universos

Certa vez ouvi uma história sobre um empresário que, interrogado sobre o sucesso da empresa que dirigia, apontou para a entrada da empresa, onde havia uma escadaria, e disse algo como:
- O sucesso da empresa se deve aos nossos ativos. E o nosso maior ativo sobe estas escadarias as oito horas da manhã e faz o percurso inverso as dezoito horas, todos os dias.

O ser humano, portador da consciência da vida. O único ser que conhecemos que pode, mais ou menos consciente das opções, efetuar decisões baseado em quaisquer critérios que adote. Embora também possua instintos, e aliás frequentemente os desvirtue, tem esta possibilidade de efetuar escolhas, de enxergar opções onde só havia o vazio, tem a possibilidade de criar ou co-criar, e, o que talvez seja um dos maiores e menosprezados recursos, tem sempre a possibilidade de mudar de idéia, de opinião.

Já foi dito certa feita que "não há vergonha em mudar de idéia; vergonha é não ter idéia pra mudar".

Elegemos ou herdamos conceitos sobre a vida, adquirimos uma maneira mais ou menos sistemática de analisar os eventos que presenciamos e tomamos nossas decisões baseado no que vemos com as lentes de nossas ideologias.

O demasiado matemático tende a ver tudo como equações que devem resolver-se. O filósofo tenta obter uma noção ampla que seja consistente, mas raramente consegue fugir dos grilhões de sua própria crença interna. O ciêntista procura reduzir a realidade a modelos, na impossibilidade prática de ampliar os modelos para abarcar toda a realidade, o que não é muito diferente do religioso, que tenta encaixar a realidade nos modelos teosóficos a que se prenda.

Uns de nós nos pretendemos mais racionais, outros mais intuitivos. Alguns de nós confiamos demais em nossos próprios brios, outros não conseguimos tomar uma decisão antes de coletar uma, dez ou cem opiniões.

Alguns de nós em princípio desconfiamos de tudo e de todos e só com muito esforço nos ganham a confiança, outros de nós confiamos antecipadamente nas pessoas e só com muita sacanagem elas podem perder a confiança que lhes atribuimos.

Altos, baixos, bem ou mal humorados, aparentemente felizes ou miseráveis, assim somos nós, tão diferentes e tão parecidos, pretendendo defender a imagem que fazemos de nós mesmos, seja ela qual for.

Independente de quem nós sejamos e de quem nós pensemos ser, e independente da concepção de mundo que adotemos, do apego mais ou menos fechado que a ela dediquemos, o importante é termos ao menos a noção do que sejam os nossos maiores ativos.

A vida que usufruimos é o mais importante dos meios pelos quais realizamos nossas habilidades. Cuidar bem desta vida é sinal de algum avanço em nossa consciência.

Somos todos importantes, todos temos possibilidades que podemos por em prática. Nos cumpre respeitar as limitações e não invejar as extensões que possuem os demais.

Na infinidade do espaço, onde corpos gravitam em torno de corpos, cada qual possúi a sua órbita. Fosse dada a lua a condição de pensar e esta optasse em ocupar a órbita da terra, teriamos uma pequena catástrofe e desarmonia locais.

Dentro da nossa órbita, somos livres para pensar e fazer o que nos aprouver. Mas somos responsáveis por estas escolhas, e pela desarmonia que trouxermos as órbitas dos demais universos individuais, que o somos, afinal, cada um de nós.

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