domingo, maio 29, 2005

Delas

Há um trecho do Talmud, a coletânea de textos sagrados dos judeus, que seria mais ou menos assim (a tradução não foi minha, e nem atestei a veracidade, apenas copiei descaradamente de um artigo do Luiz Caversan):

"Cuida-te quando fazes chorar uma mulher, pois Deus conta as suas lágrimas. A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada."

Minha postura antropológica-histórico-religiosa-cultural é significativamente diferente com relação a mulher como com relação a muita coisa, mas confesso que fiquei profundamente comovido com tamanha demonstração de carinho pela figura feminina, históricamente tão relegada a segundo plano pelas mais diversas culturas. Ainda que a imagem parta de um pressuposto algo discutível (o texto deixa aberta a interpretação [e parece favorecê-la] de que a mulher foi criada para servir ao homem), é incontestavelmente preferível ao legado da mesma tradição hebraica que narra mais frequentemente os costumes de discriminação e opressão próprios de um povo ainda em sua infância, infância esta em que ainda vive parte da humanidade.

Ouço frequentemente histórias de mulheres contemporâneas que vivem a busca de um homem ideal, ou melhor, idealizado, e que ao se enamorarem por alguém, buscam converter este alguém neste ideal. Por enfrentarem a impossibilidade disto, deixam falir relacionamentos que talvez pudessem evoluir se fossem baseados em verdadeira afeição e num pouco de compreensão, para então repetirem indefinidamente o ciclo, a busca nos homens de carne e osso do ideal que existem tão somente em suas fantasias.

Mas raramente ouço falar de nós homens buscando as mulheres perfeitas. Andei contando, e apesar de ninguém falar a respeito, se tenho feito a contagem por critérios apropriados, a proporção está pior para o nosso lado. Em algum ponto da nossa cultura alguém (não sei quem) parece ter definido que o nosso modelo na adolescência é o bart simpson, e na vida adulta o Homer, e parece que nisto temos feito a nossa lição de casa direito, logo, refletir não encaixa neste modelo senão como violação de alguns pressupostos básicos de mediocridade, que em algumas pessoas requeririam um certo esforço de adaptação e confinamento, de redução.

Para aqueles que podem ir além, devem ir, não por que são ou para que sejam melhores do que ninguém, mas simplesmente por que creio que, em podendo fazê-lo, temos a obrigação de fazê-lo. O mundo é carente de grandeza, e está saciado (empanturrado até, eu diria) de mediocridade e pobreza de todos os matizes.

Esperar daquelas que hoje crescem em dúvidas sobre os próprios valores, que sejam um modelo de virtudes que nós mesmos certamente não possuímos, é uma violência talvez maior do que o apedrejamento que nossos patrícios cometiam por suspeitas por vezes verdadeiras, mas por vezes infundadas ou até mesmo motivadas por interesses ainda mais frios.

Naturalmente, que devemos nos precaver contra as interesseiras, da mesma forma que as nossas companheiras do sexo oposto deveriam melhor se precaverem contra "alguns muitos" do nosso gênero, mas atirá-las aos leões ao menor sinal de imperfeição é esquecer que as únicas coisas razoavelmente bem construídas em nós mesmos, seres humanos contemporânos, independente de nosso gênero, são muitas vezes apenas o nosso orgulho e a nossa própria cegueira, que por sua vez, socialmente falando, são grandes defeitos e nada que nos leve a perfeição alguma.

Nenhum comentário:

Pesquisa google