sábado, fevereiro 12, 2005

Pra frente

A princípio, pensei em escrever sobre algo engraçado. Pensei em bochechas avermelhadas, de alguém que nos é especial, quando fica com vergonha. É algo ao mesmo tempo lindo, intrigante e ... engraçado. Mas acho que ninguém entenderia exatamente do jeito que eu entendo, e aí talvez não fosse assim, engraçado.

Pensei em escrever sobre o George Bush, fazer alguma piada depreciativa. Mas não tem nada de engraçado nele. Se caisse uma bigorna de aço na cabeça dele, talvez o mundo se tornasse um lugar melhor, talvez não, mas de qualquer forma eu não veria graça nisso, seria uma cena de mau gosto.

Então desisti de escrever sobre algo engraçado. Resolvi escrever sobre coisas sérias. Sobre algo que me intriga. A discrepância entre como vejo o mundo e o mundo me vê.

Eu as vezes acho que sou de aço inox, de titânio, enfim, de qualquer coisa invulnerável. É claro que estou enganado quando penso assim.

O mundo as vezes acha que sou de vidro, de cristal, de papel. As pessoas tentam me poupar das menores coisas, como se eu não tivesse estrutura para tolerar a verdade. Eu tenho lá minhas fraquezas com relação a mentira, odeio descobrir por meus próprios meios que mentem pra mim. Mas a verdade, por pior que seja, é a realidade, a gente tem que viver com ela e seguir em frente, não há segunda opção. Então é igualmente óbvio que, do meu ponto de vista, as pessoas se enganam ao tentar me preservar.

Eu me considero bastante independente do ponto de vista de tomar decisões. Não gosto nem um pouco que tomem decisões por mim. Quando decidem me preservar, estão escolhendo o que eu posso ou não posso suportar, e limitando minhas opções de escolha. Oras, ainda que eu não pudesse fazer a escolha certa, ela seria minha escolha, e quero ser responsável por ela. Então, por favor, se algum dia a bomba endereçada a minha pessoa cair na mão de vocês, não sentem em cima e deixem explodir. Simplesmente me passem.

Tem uma diferença muito grande entre tentar ter um bom coração e ser "bonzinho". Este último tenta agradar a todo mundo, ainda que para isto ele fique em cima do muro ou se abstenha de fazer a coisa certa. Não quero ter nada a ver com esta postura, então não me confundam como tal.

Eu prefiro estar errado por conta própria do que certo na imaginação dos demais. Então, por favor, não me guardem numa redoma. Eu sou gente. E tento ser gente boa, na medida de minhas possibilidades. Nem sempre é possível, ainda.

Mas a gente segue em frente. É para onde se vai, quando se quer chegar a algum lugar. Quando não se quer, qualquer recanto nas laterais da estrada serve. Mas neste caso, onde se está nunca está bom; E a vida continua uma busca incessante por coisa nenhuma, por momentos que não se perpetuam e por lembranças que perdem seu valor. O tempo passa e não espera, enquanto vendemos por trocados tudo aquilo que não tem preço.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Tão Você

Você, que habita meus sonhos, minha realidade e meu coração.
Você, que de um sorriso tira um dia de sol
Que faz chover paz na selva em chamas do meu coração

Você, que nunca conheci alguém igual
Me faz assim, sem querer, um bem maior

Me sinto importante, de alguma forma
Por que você me vê assim
E se para você algo sou,
Também sou para mim

Queria deste pequeno grande coração
Tirar teus medos e trocá-los por flores
O cansaço, trocar por beijos
E a dúvida, pela esperança

Mas, se não puder, já sou feliz
Feliz por saber
Que você, só você, é mesmo assim...
Tão você.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Para pensar...

"O amor não condena nossos erros. Ele torce pelos nossos acertos"

Nem todas as palavras vão ao vento

Não esperem muito de mim. Não sou assim tão forte.

Peço a Deus que me permita ser suficientemente forte para impedir que aqueles que amo se machuquem. Mas, se isto não for possível, que ao menos eu esteja ao lado deles, segurando suas mãos, enxugando suas lágrimas, e, se isto ainda me for possível, as trocando por sorrisos.

Gostaria de ser um homem bom, e que a paz em meu coração fosse permanente, a ponto de poder dá-la de presente ao mundo. Mas ainda estou muito longe disso. Me contentaria já se conseguisse ferir menos as pessoas, e com menos frequência.

Quando olho para quem sou, e para a frente, tenho medo. Pois vejo que grandes obstáculos me aguardam. Ao mesmo tempo, quando observo quem já fui e as coisas que hoje já não me são difíceis, quando vejo as ferramentas que a vida me equipou e que a cada dia vai me ensinando a usar, eu só posso sentir confiança e alegria.

Não compreendo por que depositou tanta confiança em alguém tão propenso a falhar.
Não posso prometer vitória. Mas posso assegurar todo o meu esforço.
Peço que me permita sentir tua presença nas horas difíceis. Nada posso sozinho.

Auxilie as pessoas a compreenderem que não há nada de especial em mim. Não gosto quando esquecem que sou apenas humano, com tudo de bom e de ruim que isto implica. Até por que geralmente se afastam, e não é o que eu quero. Sei que minha principal ocupação na vida foi, por muito tempo, manter as pessoas longe. Mas isto ficou para trás. Necessito da presença delas em minha vida, pois o bem que me fazem ainda é em muito superior ao que eu poderia fazer por elas.

Obrigado por esperar, pai. Obrigado pela paciência. Sei que jamais me abandonou. Nos momentos mais difíceis, sei que esteve comigo. Nos mais felizes, sei que compartilhava de minha alegria.

Eu não estou pronto para voar. Mas estou pronto para caminhar, um passo de cada vez.

Sê presente, hoje e sempre, e inspira-me boas idéias, para que eu tenha melhores condições de separar da impostura a verdade. Faz-me simples, para que eu não me perca na teia do orgulho, como tantas vezes. Quando eu esquecer de minhas responsabilidades, mostra-me o que estou perdendo, e deixa-me a responsabilidade de arcar com as consequências...

Um dia fiz uma promessa a meu pai e minha mãe. Sei que tem me feito cumpri-la. Gostaria de poder cumpri-la integralmente. Mas se não for possível em tempo hábil, pretendo continuar tentando ainda assim.

Guarda a todos que já amo, e os protege com tua força, já que a minha frequentemente não está a altura da tarefa.

Por último, mas não menos importante, perdoa-me, e ajuda-me na tarefa de perdoar-me a mim mesmo. Necessito tanto disto quanto de alimento.

Obrigado, por tudo.

sábado, fevereiro 05, 2005

The river flow

Tem horas em que as palavras simplesmente me escapam
Há uma agitação, uma calma agitação em minha alma. Algo que não consigo definir, e por isso mesmo, fica difícil falar disso.

As vezes temo pelos meus sentidos. Pareço um rádio velho daqueles com problema no botão de volume, uma hora fica alto demais, noutra hora não dá para ouvir, e em meio a estas variações de extremos, vou tentando "pescar" o que consigo.

Eu não sabia por que era assim. Por que ter de lidar com coisas tão complicadas?

Quando comecei a entender, é que percebi que aquela história de usar as adversidades vem mesmo a calhar. Acho que algumas lições precisamos aprender na marra, já que não cooperamos. E eu sou um teimoso de marca maior.

Sinto paz. Ontém me questionava o que era a paz. Acho que são muitas as respostas possíveis, a maioria delas ao menos parcialmente corretas.

Mas sei apenas que sinto a paz... A paz de quem espera.

Piada

Os amigos se surpreenderam, de fato, quando Frank e Jennifer terminaram seu noivado.
Mas Frank tinha uma explicação pronta:
"Por um acaso vocês casariam com alguém habitualmente infiel, que mente a cada oportunidade, que é só egoísmo, preguiça e sarcasmo?"
"- Claro que não!" Disse um amigo compadecido.
"Bom, " - Continuou Frank - "Jennifer também não."

(Favor rir. Obrigado.)

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Epa! Falou!

... E não é que a vida fala mesmo?

Confesso que estou com medo. Essa coisa do desconhecido. Adentrar novos terrenos. Pisar em ovos no escuro.

Situação engraçada. Acredito que sei o que fazer. Acredito que é a coisa certa. Acredito que posso fazer, e que será uma coisa boa, antes de tudo. E ainda assim, tenho medo. Medo de não estar a altura da tarefa. Medo de não saber lidar com responsabilidades tão grandes.

Mas... ao mesmo tempo, esse medo não é suficiente para me impedir de prosseguir, eu sei. Não quer dizer que isto o anule. Mas já é uma boa coisa. Estou determinado a seguir desbravando territórios novos. Mas com calma. Com paciência. Determinação. Disciplina (vai ser o mais difícil, manter a disciplina).

A vida me pede nova responsabilidade. Eu fico honrado, e não posso responder senão: aceito. Eu deveria estar assustado, afinal, eu já tenho novas responsabilidades, uma a mais deveria ser um problema. Por que então vejo como uma benção?

Mas estou com medo :-)

Me desejem sorte, na vida nova (lembram do post de ano novo, onde eu dizia: nada de vida nova?! Esqueçam: ano novo, vida nova ... mesmo não tendo planejado!)

A vida humana

Já falei sobre valor aqui, e como é difícil conceituá-lo, definí-lo, e quantificá-lo.

Sobre o valor da vida humana então, seria pretensão minha chegar a alguma conclusão. Vou narrar apenas alguns fatores que considero. Não vou contrapô-los, como geralmente tento fazer. Isto fica a critério de cada um.

Fico imaginando o que sentiram os então "herdeiros" da terra, os primitivos homens de cro-magnon, ao observar as estrelas. Provavelmente a maioria deles ficaram indiferentes, pois na vida do homem primitivo, a prioridade, a ocupação da relativa capacidade de pensar, é certamente empregada na sobrevivência e na satisfação dos sentidos, portanto a busca do alimento e a necessidade de reprodução lhes ocupava a mente tanto quanto ainda parece ocupar a de muitos representantes da nossa própria espécie, o homo-sapiens, cujas capacidades comprovadamente desenvolvem-se de maneira diferente em cada indivíduo.

Mas creio, sem nenhuma base no entanto, que talvez alguns destes primitivos cro-magnons tenham um dia sentado sob uma pedra ou o que quer que seja, numa destas noites estreladas que a nossa iluminação artificial obscurece em nossas cidades, e indagado sobre o que seria aquilo. E em algum ponto, provavelmente em época posterior, algum homem, talvez já homo sapiens, deve ter se incomodado: "Que tipo de mundo é este, onde há estrelas? O que haverá além de onde posso ver? Que sou eu, afinal?".

E sem querer, provavelmente ali nasceram, ao menos em nossa esfera azul, a filosofia e a ciência. Sem com que o filósofo-cientista sequer soubesse o que um dia viriam ser estas coisas.

Nós, homens contemporâneos, vivemos em tempos curiosos. Não só já sabemos que os átomos, que receberam este nome por que acreditava-se serem particulas elementares, indivisiveis, na verdade são compostos por partículas ainda menores, e como "dividir o indivisível" artificialmente, o que deu origem a era nuclear, de cujas pesquisas sairam, dentre outras coisas, o conhecimento sob a bomba atômica e a geração ade energia, através do mesmo processo que originou a bomba, executado, no entanto, de forma lenta e controlada.

Em toda a parte, arranha-céus que certamente os próprios engenheiros que os construiram teriam sérias dúvidas sobre suas possibilidades, enquanto ainda eram estudantes. O conhecimento evolve em toda parte, transformando a face do mundo em uma velocidade que as vezes pensamos não conseguir acompanhar.

E, talvez por que pareça acontecer assim, tão rápido, as vezes nem tentamos entender o mundo. Passamos pela vida, e quando vemos, estamos onde sempre estivemos, no frio e na chuva, mas já não temos o mesmo vigor de antes. Descobrimos que a vida também passou por nós. E talvez alguns de nós descubram então que ela sussurava em nossos ouvidos "vive-me", mas não tinhamos algo. Não tinhamos tempo, coragem, vontade ou disposição de ouvi-la.

A vida não nos pede que sejamos cientistas ou filósofos. Não nos pede que sejamos santos, que não erremos. O convite da vida é para que saibamos ouvir. Talvez tenhamos dificuldades em operar dois ouvidos, embora eles funcionem tão integrados que ouvimos como fosse um só. Mas a boca é mais fácil de operar, pois a faculdade da fala nos salta relativamente bem desenvolvida mesmo até aos dois anos de idade.

Confesso que tenho enormes dificuldades em entender a vida. Intelectualmente, são muitas as teorias, e embora eu aprenda coisas novas todos os dias, e muita coisa me faça sentido, eu sei que o que parece ser uma poça d'agua as vezes não passa de uma gota, diante do infinito de coisas que ignoro.

Mas, quando me sento sob uma pedra, a observar as estrelas, um não-sei-que se apodera de meus pensamentos, que então se calam, e ali, no silêncio, tentando pensar apenas no que sentiria o cro-magnon, eu me sinto em paz, e todas as coisas deixam de fazer sentido. Por que então, por breves instantes, cessa-me a necessidade de que as coisas façam sentido. Elas são o que são, da pedra as estrelas.

E se elas tem a paz de não precisarem-se descobrirem-se e definirem-se, e se não precisam incomodarem-se com o desconforto intelectual de não saberem o que são, tampouco podem maravilhar-se com o fato de saberem-se aquilo que fizeram de si mesmas: são, o que conseguiram, até então, e serão o que conseguirem fazer de si mesmas, sob a égide do tempo que constrói, destrói e reconstrói pelos seus próprios critérios, critérios estes que por mais observemos, quando queremos, não chegamos a apreender senão de forma parcial.

Há grandiosidade na vida, e ela não vem em carros alegóricos, e não faz barulho. Não requer discursos, não requer atenção, não exige revoluções, nem a força que não temos.

Tudo que a vida parece pedir é atenção.

Eis a minha. Fala-me...

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Adversidade

Certa vez, assisti uma entrevista com o ator Michael Caine.
Ele estava contando suas experiências de vida, e lembro de um trecho particularmente interessante.

Narra ele que em uma peça de teatro, em uma de suas primeiras aparições, se deparou no palco com uma cadeira que estava trancando a porta. Ele não sabia o que fazer, por que ele deveria, de acordo com o script, abrir a porta, mas a cadeira estava na frente, impedindo a ação.

Se lembro bem ele ficou meio desesperado, e saiu do palco. E então alguém lhe disse: - você precisa usar a adversidade.
- Usar a adversidade? - Perguntou ele.
- Sim, use a adversidade.
- Mas como?
- Oras, improvise, se for um drama, destrua a cadeira, se for uma comédia, faça do fato da cadeira não dever estar ali algo engraçado. E conta ele que esta lição ele nunca esqueceu, e que foi muito importante durante o desenvolvimento de sua capacidade de atuar, pois, se é um dos brilhantes atores de sua geração, ele teve que aprender, como todos nós, através de dificuldades.

Pena que esta seja uma arte tão difícil, a arte de usar as adversidades. Mas desconfio que faça algum sentido aquela afirmação que as melhores coisas na vida costumam mesmo ser difíceis, ao menos no começo.

Fica aqui uma lição que um dia espero aprender.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Convite à Esperança

"Tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre." (I Coríntios: 13-7)

Não obstante estejam cararncudas as nuvens do teu céu, prenunciando borrasca próxima aflitiva, espera. Após a tempestade, que talvez advenha, talvez não, defrontarás dia claro pelo caminho.

Embora a soledade amarga a fazer-te sofrer fel e dor como se já não suportasses mais a lenta e silenciosa agonia, espera. Amanhã, possivelmente dois braços amigos estarão envolvendo-te e voz veludosa cantará aos teus ouvidos gentil canção ...

Mesmo que tudo conspire contra os propósitos abraçados, ameaçando planos zelosamente cuidados, espera. Há surpresas que constituem interferência divina, modificando paisagens humanas, alterando rumos considerados corretos.

Apesar de a chibata caluniosa fazer-te experimentar reproche e desconsideração, arrojando-te à rua do descrédito, espera. A verdade chega após a calamidade da intrujice para demonstrar a grandeza de sua força, renovando conceituações.

À borda do abismo do desespero, incompreendido e em sofrimento, estuga o passo e espera. Reconsidera atitudes mentais e recomeça o labor. O futuro se consolida mediante as realizações do presente...
Esperança expressa integração no organograma da vida.

O rio muda o curso, a montanha desaparece, a árvore fenece, o grão germina, enquanto esperam...
A mão grandiloquente do tempo tudo muda. O que agora parece sombras, logo mais surge e ressurge em ouro fulvo de luz.

Espera, diz o evangelho, e ama.
Espera, responde a vida, e serve.
Espera, proclamam os justos, e perdoa.

Espera no dever distribuindo consolo e compreensão, porquanto, a fim de que houvesse a gloriosa ascensão do Senhor, na montanha da Betânia, aconteceram a traição infame, o cerco da inveja, a gritaria do julgamento arbitrário e a Cruz odienta, que em sublime esperança o Justo transformou na excelsa catapulta para o Reino dos céus.

(Joanna De Ângelis, pelas mãos de Divaldo Pereira Franco, extraído do livro Convites da Vida)

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Através dos olhos teus

Li certa vez uma frase (que acredito já ter citado aqui) que provocou um certo desconforto filosófico em mim.

Não lembro a origem e menos ainda a autoria, e nem a frase inteira, mas era alguém definindo a infelicidade como sendo a tentativa de tornar permanente as coisas transitórias.

De onde eu vejo, não é a causa de toda a infelicidade, existem inúmeras outras razões. Mas é fácil ver que se as coisas que tanto gostamos nos escapam por entre os dedos como fossem areia, que as coisas que vemos de uma forma hoje se mostram de outra amanhã, ou pior, as coisas que se mostraram de uma forma ontém se mostram nada daquilo hoje, então, nosso chão rui, nossas pernas fraquejam, nossa força se esvai, nosso mundo deixa de fazer sentido.

E aquela necessidade de recomeçar a vida, mais uma vez... De onde tirar forças? Porque, normalmente, a sensação que temos quando deixamos um contexto que nos era próprio, conhecido, manejado, para adentrar novamente em terreno desconhecido, é a de que levamos conosco o peso das dificuldades, do que consideramos que deu errado, mas parece que as coisas boas ficaram para tras, que não as podemos trazer conosco, pois foram ilusões, ou, ao contrário, realidade demais. E, de fato, é bem difícil conseguir perceber, senão com o tempo, que é justamente elas, as coisas boas, que nos dão forças para prosseguir.

Nem todas as coisas que escrevo são por experiência própria, embora eu gostaria de pensar que fossem. Algumas coisas que escrevo nem são minhas, outras ainda não são quem eu sou, apenas quem eu gostaria de ser, um dia.

Mas posso falar um pouco sobre recomeçar. Houveram algumas circunstâncias em que me vi com um passado inteiro para trás, e não conseguia ver nele sentido. Para a frente, um futuro cego. Naturalmente cego, por que, sem um presente, não da para pensar num futuro. O futuro não é algo definido, marcado, pré-destinado, mas senão principalmente a consequência do que fazemos hoje.

E lembro perfeitamente, bem por que não faz tanto tempo assim, da necessidade de "fazer das tripas coração". De inventar a fé que não tinha.

Sempre gostei daquela imagem: "Quando cair, levante, bata a poeira, e continue andando". Mas nestas circunstâncias, nem dá tempo de bater a poeira, você de alguma forma precisa encontrar forças e seguir andando, com poeira e tudo.

E eu acreditei que podia fazer isso tudo sozinho. E em parte estava certo, em parte não. Ao escolher um caminho solitário, eu escolhi o caminho mais difícil. E deixei de sentir. Por anos. Por medo.

Nem medo, nem tristeza, nem felicidade, nem raiva, nem dor, nem compaixão, nem ódio, nem nada. O vazio.
Que um dia se torna desesperador. Por que é guardar uma amargura contra si mesmo. É condenar-se por ser humano, é não aceitar que se é o que se é: alguém que por mais queira acertar, ainda vai cometer enganos. Os comete todos os dias. Alguém que precisa da força da família, por mais que momentaneamente, esta familia esteja desencontrada. As vezes somos nós mesmos os elos que a família precisa para se reajustar.

Eu fechei-me em minha armadura, armado com lanças afiadas, pronto a cortar a garganta de quem quisesse chegar perto.

E num processo algo lento, encontrei razões para sentir novamente. Para permitir que o coração agisse onde antes só havia a razão (e nos julgamos senhores da lógica, nós, que tanto erramos!)...

Comecei a sentir as pessoas novamente. Eu digo isto de uma forma que talvez nem todo mundo esteja apto a entender. Eu tive esta faculdade, algo rudimentar, algo inexata, de sentir o que as pessoas sentem. Podia saber se estavam tristes, ou com raiva, ou felizes, e as vezes até o por que, e isto era muito bom, por que eu podia me aproximar delas e sabia exatamente o que dizer. Mas isto ficou meio obscurecido. Eu cheguei a acreditar que era ilusão da minha cabeça, ou que era uma maldição, afinal, neste mundo, existem razões de sobra para não se acreditar nas coisas, e talvez poucas para se acreditar em qualquer coisa. Meu lado filosófico-ciêntifico-empirico é muito forte, por mais que eu negue. Noutras palavras, meu lado "são-tomé", que só acredita vendo, é maior do que talvez devesse ser.

E fui tentando retomar minha vida. Mas surpresas inesperadas aconteceram.
E são elas, as surpresas inesperadas, que nos permitem ter esperanças nestes recomeços...

Eu vi, num olhar, apenas num olhar, algo que me encantou e me assombrou.
Eu vi a mim mesmo. Não o eu que eu imaginava ser, nem de antes, nem de então. E certamente não tive uma visão de futuro. Eu vi naquele olhar quem eu queria ser. Mas não como naquelas fantasias que a gente cultiva, de ser uma pessoa melhor. Nenhum super-herói.

Eu vi alguém que podia ser exatamente o que eu era. Com algumas pequenas diferenças, apenas.
Este alguém que eu vi não precisava mais da armadura, ou de espinhos, ou de nada. Não precisava mais de máscaras.
Este alguém não precisava sonhar ou esperar em ser a pessoa que desejava ser daqui a 100 anos. Este alguém podia sê-lo agora, imediatamente. Por que não precisava ser perfeito, apenas fazer o que estivesse a seu alcance.

Este alguém era eu. Apenas eu. Com o que tenho de bom, de ruim, de estranho, de diferente, de normal, de complicado, de simplório.

Me vi pelos olhos de alguém. Estava dentre as coisas que julgava ser impossível.

Naquele instante, o que ocorreu é que me senti amado. Percebi que poderia amar, ainda que não soubesse (e não sei) exatamente o que é o amor.

Não estou falando de paixões. Nem de romances. Nem de qualquer outra coisa que inclusive eu mesmo possa confundir como sendo amor. Eu senti uma paz tão grande que não sonhei pudesse existir.
Tudo de repente parecia fazer sentido. Eu já não precisava mais de tantas explicações racionais para tudo.

E de repente tudo se abriu diante de mim. Meu passado, meu presente, meu futuro. Mas eu me assustei. Quem não se assustaria? E é claro, eu confundi as coisas, eu me perdi, eu tive medo, eu tentei fugir disso tudo, vestir a armadura de novo.
Mas o homem que sai da armadura já não tem o mesmo tamanho daquele que entrou nela, em primeiro lugar.

E eu fui egoísta. Profundamente egoísta. E covarde. Como provavelmente ainda serei muitas vezes na vida, não me iludo mais quanto a isto.

Eu até me entendo. Afinal, ninguém muda do dia para a noite. Ainda que descubra quem é, do dia para a noite.

E a gente nunca sabe o que precisa para que isto aconteça. Acho que para uns pode ser o resultado de anos de estudo e vivência. Para outros, pode cair um vaso da cabeça, ou estar olhando o mar, e de repente, ter aquele estalo:
- Eureka! Descobri quem eu sou.

No começo sentia pena que nem todo mundo pudesse entender isso. Mas então compreendi: eu mesmo não podia, até bem pouco tempo atrás. Acho que todos nós temos nossa hora. Não é minha responsabilidade tentar acelerar ou retardar este processo, pelo contrário.

Comigo foi algo inexplicavelmente mágico: apenas um olhar. Em uma noite estrelada, fria, e bela.
O olhar mais doce e perfeito. Nem os anjos dos céus jamais me olharam desta forma.

Dizem que nós humanos não experimentamos a perfeição. Eu acho que talvez não consigamos honrar a perfeição.
Mas se isto que descrevo aqui não é perfeito, então não sou capaz de imaginar o que seria perfeição. E o que é mais incrível: Não preciso imaginar. Eu vivi.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

O Valor

Algumas pessoas não entendem por que escolhi cursar economia. Confesso que até uns dois anos atrás, *por mais que me interessasse pelo assunto*, eu também me espantaria se me encontrasse hoje nesta condição.

Há várias coisas que gosto, há algumas que quero aprender, e outras que possivelmente vou detestar. Faz parte, na vida, a gente embarca com o pacote completo: com as alegrias e tristezas, com as decepções e as surpresas.

Mas uma coisa sempre me interessou de modo muito particular: o conceito de valor, que para mim, é um dos mais subjetivos que existem. No comércio de forma geral, já é complicado encontrar fórmulas e processos para descrever este conceito de forma relativamente uniforme. Se não me engano foi Adam Smith quem introduziu ou aperfeicoou o conceito de que o preço de um produto é determinado pela relação entre o custo de produção e a quantidade de pessoas que se dispõe a pagar um preço por ele. É só o que explica, por exemplo, como podem haver algumas pessoas que chegam a pagar mais de 20 reais numa garrafinha de água "perrier", só por que é francesa e de marca conhecida. É agua, pelo amor de Deus!

Mas vejo o conceito de valor também de uma forma mais pessoal, mais particular. Quem, senão nós mesmos, pode nos dizer quanto valem as pequenas coisas que guardamos em nossas casas, que para nós tem um valor sentimental? Quem pode ousar quantificar quanto vale o amor que sentimos por aqueles que nos são caros?

E é esta uma das razões de desentendimento entre as pessoas. Por que, em quase tudo, não podemos, simplesmente nos é impossível, perceber o quanto algo, ou alguém, ou ainda, alguma coisa, é importante para uma pessoa.

Por exemplo, a música que você ouve pode não valer nada diretamente para mim. Posso não apenas desprezá-la, mas sentir calafrios e ânsia de vomito (exagerado como sempre, acho que isto não consigo mudar) quando a ouço. Mas se você é uma dessas pessoas importantes na minha vida, é bem possível que, mesmo sem eu saber, esta música também seja igualmente importante. Por que pode ser uma das causas do seu bom humor, do seu sorriso, ou simplesmente pelo fato de que enquanto você a esta ouvindo, pensa em alguém que lhe é especial.

Talvez eu nunca saiba o que eu significo para vocês que aqui lêem, por que mesmo que vocês me digam, eu posso nao entender. Da mesma forma, se eu tentar colocar em palavras, e mesmo ainda que pense ter conseguido, talvez as palavras entrem pelo ouvido, sejam corretamente decodificadas pelo cérebro e simplesmente não façam o mesmo sentido ao coração de quem ouve, do que o sentido que tem para o coração de quem diz.

Ainda assim, gostamos muito de ouvir explicações e parece mesmo que precisamos as dizer. Talvez, como tudo na vida, com um pouco de exercício, seja possível nos fazermos entendidos. Talvez o que vale para uma pessoa, passe a valer, mesmo de que forma indireta, para outra, quando nos fazemos compreender.

Quando um povo e seu modo de vida nada vale para outros povos, e este se julga no direito de se impor, nascem as guerras. Quando uma pessoa nada vale para outra, é possível que ela seja morta por causa do seu tênis, ou 10 reais, ou simplesmente por que estava no lugar errado, na hora errada.

Quando ainda e no entanto, adquirimos a faculdade de perceber o mundo através dos olhos de outras pessoas, ainda quando estranhamos as cores que vemos, estamos a meio passo de entendermos a nós mesmos, e finalmente entendermos por que nossos valores significam tanto para nós, ainda que, para o resto do mundo, o que vale seja o oposto.

Boa semana :-)

terça-feira, janeiro 18, 2005

Se eu pudesse...

... dizer todas as coisas que me ocorrem, e fazê-las entendidas;
... amar da mesma forma que sou amado;
... desatar todos os nós;
... derrubar todas as muralhas que nos separam, e no lugar destas, estender pontes;
... entender por que algumas pessoas precisam derrubar as outras para sentirem-se "bem";

Se eu pudesse, por alguns instantes, dizer o que me vai no coração, e conseguir fazê-lo de forma clara, mas, na verdade, nem eu mesmo entendo, as vezes, como as coisas são.

A verdade é que eu ainda começo a aprender sobre a vida. Que o mais importante não precisa ser dito. Que talvez nunca seja tarde demais para recomeçar.

Ela estava ali, sentada, pálida, abatida, com as lágrimas já secas marcando o rosto. No seu coração sentia imenso vazio, sem saber onde ir, nem por que. Pensava no que faria da sua vida, agora, que tudo havia mudado. Não sabia mais quem era, mas sabia que não era mais quem fora até então.

E foi nestas condições que Ele a encontrou, ao adentrar a porta de sua pequena moradia. Ao vê-lo, ela se aproximou e desabafou, contando da angústia que lhe invadia a alma. Do vazio. De não saber mais para onde ir.

Ele a acalmou, e levando-a até a janela, interrogou:
- Minha filha, o que vê, ali, logo adiante?
Ela olhou, e se apercebendo do lugar apontado, comentou:
- Eu vejo ruínas, do que antes fora uma casa. Há apenas destroços de madeira.
E ele, satisfeito com a observação, sorriu, mas acrescentou:
- Olhe com atenção. O que mais você vê?
- Eu vejo flores. Sim, há algumas pequenas flores, nascendo ali, entre os escombros.

Ele, sorrindo, a segura pelas mãos, e olhando em seus olhos, aponta para as ruínas da velha casa e exclama:
- Se meu Pai permite que a vida venha a renascer ali, entre os escombros de uma casa que já não tem serventia, por que não haveria de permitir que o mesmo acontecesse na intimidade de uma de suas amadas filhas?

E foi ali, naquele dia, diante daquela paisagem, que Maria Madalena percebeu o sentido da vida.

Todos queremos perdão quando erramos, mas quantos de nós estamos aptos a perdoar?

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Resumo

Resumo dos últimos dias:

- Passei no vestiba (vide post anterior). O resultado saiu na quarta passada. Provavelmente só não estou mais contente do que o meu pai :-D
- Na quarta mesmo rolou um churrasquinho com a família e amigos, estava muito bom
- Na quinta cedo saí viajar com a minha irmã Elaine. Fomos inicialmente para floripa.
- Acredito que conhecemos a maioria das praias do lado norte da Ilha, e mais algumas coisas por lá.
- Hoje (ontém) cedo, saímos de lá e fomos para garopaba. Antes, conhecemos a praia do rosa.
- Na volta paramos em um vilarejo muito rústico e bonito, mas não recordo o nome agora.
- Paramos em meia-praia, ao lado de Camboriú. É um clone de camboríu, agitada e super populosa.
- De lá viemos para cá. Estou quebrado da viagem, só meu cabelo não dói.

Boa semana a todos. As férias acabaram. Amanhã é dia de voltar a luta, o que espero fazer com muita satisfação :-)

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Eu...

... Passei!


É importante saber que passei, por que isto ajuda a definir muitas coisas, sobre o futuro.
Estou muito contente, mas não vou me prolongar... Escrever não é bem o que me passa pela cabeça agora :-)


Às Senhoras, e aos Senhores, que de alguma forma compartilharam comigo desta etapa de minha vida: Muito Obrigado!

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