terça-feira, agosto 31, 2004

P'ra não dizer...

Pra não dizer que meu blog é só lamento, vou escrever uma história alegre desta vez.

João tinha 28 anos, era casado com Augusta, que tinha 27, filha de d. Maria, 65, e seu Antenor, 72.

João era torneiro mecânico, trabalhava 8 horas por dia, inclusive aos sábados, mas como moravam na grande metrópole, levava hora e meia p/ ir, hora e meia p/ voltar, da sua residência ao trabalho. Tinha hora e meia de almoço, o qual fazia no refeitório da empresa. 8 com três são 11 horas, mais hora e meia são 12 horas e meia.

Dormia 8 horas. E nas atividades corriqueiras como se alimentar, escovar os dentes, ir ao banheiro, fazer a barba, dispendia mais duas horas por dia. São 8 horas dormindo e 14 horas e meia, se somei certo, 22 horas e meia. Sobram-lhe uma hora e meia.

Nesta hora e meia, João, que durante a maior parte do tempo é um ser pacato e de falar pouco, procura aproveitar para tirar o atraso. Em geral, conversa com Augusta sobre coisas da vida.

A interroga sobre como foi seu dia, o que ocorreu na vizinhança, o que passou na tv. Eles ainda não tem filhos, mas planejam ter nos próximos 3 a 4 anos, se o salário de João melhorar. A partir do terceiro ano no emprego, ele recebe adicional por participacão nos lucros, o que, se tudo der certo, aumentará seu salário significativamente.

João adora conversar com Augusta sobre seus planos para o futuro. Falam até de quando estiverem aposentados, e tiverem netos. Tentam adivinhar quantos, quais seriam seus nomes, a profissão de seus futuros filhos.

Riem de si mesmos, quando descobrem quanto tempo passam no assunto.

Augusta é uma mulher muito feliz. João, embora não fosse um homem particularmente bonito, nem rico, era muito cobiçado, pois no bairro onde eles moravam, era dos poucos trabalhadores bem empregados. Antes de trocar de emprego, trabalhou por dez anos em uma metalúrgica, que acabou fechando por conta de um destes pacotes econômicos.

Augusta, no entanto, não se interessava por João pelas condições que ele podia lhe dar. Quando conheceu João, ele foi, de início, um bom amigo. Saiam juntos as festas, conversavam bastante, e João, na época, namorava Helena, prima de Augusta, hoje com 31. Foi nessas conversas que Augusta se apaixonou.

João era um homem atencioso. Prestava atenção nos menores detalhes do que Augusta lhe confidenciava, sempre querendo saber mais. E como gosta de falar Augusta? É capaz de discorrer dias a fio sobre o mesmo assunto, ou sobre todos eles...

Helena fugiu certa feita com o filho do dono da mercearia, Henrique, hoje com 39. No dia que João soube, ficou furioso, e muito triste, mas ao mesmo tempo, descobriu que já não era Helena que motivava seu coração.

Sempre educado e cordial, não quis declarar-se a Augusta, sob medo de que ela o rejeitasse, ou então, que pensasse que a queria usar, para afogar as mágoas.

Sairam juntos, com amigos, por muitas vezes ainda, até que um dia, Augusta resolveu declarar-se para João. Qual a sua surpresa, quando ia dizer o que habitava seu coração, quando João segurou suas mãos, e olhando em seus olhos, lhe disse:
- Talvez não devesse te dizer, assim, na frente de todo mundo, mas eu lhe amo.

Augusta desmaiou, mas em alguns segundos, recobrou a consciência, duvidando do que havia escutado.
Os dois conversaram e trocaram declarações mútuas de amor e ternura. Imaginavam, porém, que a família de Augusta não seria muito simpática a idéia deles namorarem, pois o Sr. Antenor era muito severo.

E de fato, no princípio, houve certa resistência, mas o seu Antenor, que era engenheiro mecânico, encontrou no futuro genro, além de um homem honrado, um interesse muito grande por máquinas, o que fazia com que tivessem assuntos para conversar por horas. o seu Antenor havia sido professor, e nunca havia tido um aluno tão dedicado. João, que gostava de escutar, também gostava de aprender. A admiração com que olhava para o sogro fazia o coração de Augusta brilhar como fosse lua cheia; Tinha ela muita satisfação em ver que os dois homens de sua vida se respeitavam e admiravam mutuamente.

Quando João propôs Augusta em casamento, seu Antenor ficou tão feliz que chorou e abraçou o genro, o chamando de filho. Até então, não tiveram filho homem, ele e dona Maria. Mas João era um verdadeiro filho dedicado.

Praticamente todo o bairro assistiu ao casamento, inclusive Helena, que a esta altura já estava solteira novamente.

Helena, aliás, era sem dúvida, a mulher mais cobiçada de todo o bairro, pois além de uma bela mulher, sua família tinha boa situação.

Ela fez de tudo para conquistar João novamente, e quem mais lhe passasse as vistas, mas não tinha ele interesse em aventuras. Só pensava ele nos filhos, e até nos netos, que anseiava por ter, e por cada dia maravilhoso que passava ao lado de Augusta.

Sentia-se ele tão feliz no trabalho, pois fazia o que gostava e era respeitado. Funcionário do mês por várias vezes. O patrão encorajava-o a tentar um vestibular, dizia que ele seria um grande administrador de empresas algum dia, pois João sabia de cor e salteado como funcionava cada setor da empresa. Ele, que ainda não pensava nisto, também não descartava a idéia.

Mas o ponto alto de João era na volta para casa. Sabia que iria encontrar Augusta com os abraços abertos. Nestes anos, não houve um só dia em que, estando juntos, não conversaram, sentados no sofá, as vezes João com a cabeça no colo de Augusta, as vezes o inverso. As vezes ele lhe fazia uma massagem nos pés, as vezes cafuné, embora Augusta sempre dormisse quando lhe passavam a mão na cabeça, era tiro e queda.

Nos fins de semana, revezavam entre visitar parentes e amigos e o tradicional churrasco quinzenal do seu Antenor.
Raramente puderam viajar, e em uma destas vezes, foi a o enterro de dona Amélia, mãe de João, que faleceu aos 72 anos.

Mas planejavam eles viajar nos finais de ano, o que ainda não deu certo, pois as prestações da casa subiram muito e não sobra dinheiro. O que não os faz lamentar, dinheiro é a menor das preocupações deste casal, que teve vida difícil, sem conforto, que os fez acostumarem desde cedo as dificuldades.

Certamente enfrentarão, estes nossos personagens, dificuldades na vida. Mas, eu, que apenas atiro as palavras ao esmo, imagino que eles continuarão muito felizes, tanto quanto a vida lhes permitir.

Com a cabeça repousando no colo de João, Augusta, que sempre foi mulher prática e não é dada a rodeios, imaginava, no entanto, o que seria de sua vida se não estivessem juntos. Seria feliz, certamente, pois sempre foi de sua natureza a alegria, a felicidade.

Mas imagina se sentir-se-ia completa, se os seus sonhos antigos, de ser secretária de algum médico importante, seriam mesmo tão interessantes quanto ela imaginava, caso João não sentisse o mesmo por ela, à época em que se declararam um ao outro.

Concluiu que talvez se adaptasse, encontrasse ali alguma satisfação. Provavelmente teria conseguido superar o fato de João ter seguido seu caminho. Teria conhecido outrém, quem sabe?

Mas agora, com a vida que leva, sabe em seu íntimo que nada poderia lhe fazer mais feliz, do que os dias que a vida lhe dá, exceto, talvez, os dias que ainda virão.

--

Um dia pretendo dar um final a esta história... Se é que eu realmente a comecei.

Por enquanto, basta reafirmar que não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho, para uma vida repleta de realizações.

Nenhum comentário:

Pesquisa google